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CONVENÇÃO DAS BRUXAS
12/05/2013 as 09:50 h  Autor Bruno Peron  Imprimir Imprimir
O Maquinário brasileiro é aliado condicional da nata tupinica - que se crê europeia e civilizada -, ludibriador assíduo do povo brasileiro, e inimigo mortal dos povos originários. Mas a esta verificação não se chega sem contrastar o Brasil da oficialidade com o Brasil da realidade; o primeiro é fantasioso e não se reproduz sem o recurso à desinformação e à ingenuidade.

As crianças usam sua ingenuidade como acicate para a transformação cultural, política e social do seu meio tão logo descobrem as desconformidades deste mundo. Um filme marcante e ao qual assisti na minha fase de infância foi Convenção das bruxas (1990). Em seu roteiro, as bruxas reuníam-se regularmente numa sala de eventos de um hotel para discutir seus planos contra os seres de bem (em referência aos humanos) e como transformá-los em ratos. As bruxas disfarçavam-se de humanos e, quando estavam somente entre elas, retiravam as máscaras e entreolhavam-se através de suas feições repugnantes. As bruxas sentiam pelo odor quando algum ser de bem estivesse próximo. O eflúvio deste incomodava suas narinas perniciosas.

Convenção das bruxas foi marcante porque sua narrativa não está somente no plano ficcional. O conteúdo deste filme impacta e ofusca a ingenuidade das crianças, mas afortunadamente não lhes anula o desejo de transformar a humanidade desconforme em seres de bem.

Alguns grupos agem notoriamente numa convenção a favor do anti-humano: os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas punem outras nações por tão somente obter capacidade de dissuasão militar na era nuclear; o Banco Mundial faz recomendações comerciais absurdas aos países de industrialização incipiente, tais como os investimentos bilionários na construção de estádios de futebol no Brasil que decolou sem asas.

Tenho confiado mais em notícias sobre o Brasil que me chegam como integrante de uma lista de correios eletrônicos de uma universidade canadense que da imprensa brasileira, que pouco se atreve a denunciar as barbaridades cometidas nas "terras sem lei". Melhor me refiro às terras onde a lei tem dono e onde os políticos locais se compram pelos bandeirantes de última hora.

Entre estas terras onde a lei tem dono, cito a obra criminosa, descabida, injustificada, invasora e ilegítima da usina hidrelétrica de Belo Monte no Pará. Este mega-empreendimento não só não reduzirá o preço da eletricidade dos consumidores de outras regiões, que já foi negociado sob os acordos de concessões pelo ministro Edison Lobão, como também arruinará a vida das populações nativas (humana, flora e fauna) e antecipará a destruição da Amazônia.

Igualmente grave é a invasão às terras indígenas nos estados de Amazonas, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul a fim de que o Brasil bata os recordes de quantidades de grãos e de pedaços de animais que se exportam. Esta remessa de mercadorias ao exterior seria ainda melhor - segundo reportagem recente do Fantástico - se a construção da ferrovia que ligaria o Brasil de Norte a Sul não fosse superfaturada e feita sem planejamento. A omissão do governo brasileiro é assustadora e inaceitável. Legisladores do Mamódromo Nacional e alguns executivos fazem vista grossa ao massacre dos indígenas em plena era dos direitos humanos. Representantes do grupo indígena Munduruku se dizem desrespeitados, enganados e humilhados pelo governo brasileiro.

Por esta razão, não há "terra sem lei", mas donos da lei que impõem aos povos originários o princípio mais espúrio do bandeirantismo ao criminalizar o outro e suas formas de subsistência. Mesmo recurso usou o algoz Domingos Jorge Velho, que envergonhou São Paulo ao aniquilar o movimento digno de resistência afro-descendente no coração do quilombo dos Palmares.

O Maquinário brasileiro solicita uma guinada que corrija completamente seus rumos. Só assim deixará de representar os interesses da nata, de ludibriar o digno e sofrido povo brasileiro e de malquistar os povos originários em suas lutas pela preservação de suas comunidades e da natureza. Para o cumprimento deste objetivo, é preciso coibir as convenções das bruxas - lideradas pela grande bruxa - em suas tristes decisões de transformar seres humanos em ratos.

Bruno Peron
http://www.brunoperon.com.br

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