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Gastos públicos com eventos prejudicam o turismo interno do Brasil
22/04/2013 as 18:08 h  Autor José Queiroz  Imprimir Imprimir
Religião, História, Literatura, símbolos culturais, e lazer, nessa ordem, foram as primeiras motivações para o comércio das viagens organizadas para pessoas, casais, famílias e grupos. Transporte a vapor, cinema, avião e TV as incrementaram bem antes dos eventos. Mas, o monopólio da indústria turística atual no Brasil por operadores de viagens que direcionam os fluxos, em parcerias não controladas com o Estado leigo, ou desonesto, e o dinheiro do contribuinte, está criando eventos – muitos completamente inúteis! – onde o público banca as despesas e o privado fica com os lucros. E há muitas empresas privadas de homens públicos! O que sobra não sustenta a cadeia produtiva do receptivo dos principais centros turísticos do país.

A estrutura de publicidade, captação e vendas do país é excelente e reconhecida mundialmente, afinal, a maior parte dos gastos com qualificações são feitos para isto, e o brasileiro viaja muito para o exterior, é desejado pelo que gasta. Não foi à toa que os EEUU se preocuparam com as barreiras! Seguramente, os agentes e comerciantes do turismo interno norte americano influenciaram nisso, como vem acontecendo onde a indústria turística é bem organizada e bem dirigida. Porém, o Brasil e sua classe média são grandes, tem uma variedade de atrativos que poucos países têm, e as pessoas querem viajar dentro dele, conhecer cidades, monumentos, praias e povos. Não há dúvida de que os encontros profissionais são vitais para as relações comerciais e o desenvolvimento da sociedade humana, mas não é o motor do turismo mundial.

Os eventos são caros para as localidades, principalmente os que envolvem apenas o trade turístico. A visitação no II Salão de Turismo da Bahia foi gratuita, mas os estandes não – custou R$ 3.800,00 na BNTM, evento paralelo – e o Estado bancou passagens, hospedagens e transporte para operadores convidados. Muitos serviços e shows nesses eventos são pagos com dinheiro público, sem licitação! E a agenda é intensíssima, qualquer pesquisa rápida comprova, vejam uma lista como exemplo http://www.panrotas.com.br/canais/redacao/plantao/portal_reader_noticia.asp?cod_not=25577.

Gestores e operadores de turismo vivem circulando entre eventos, gastam dinheiro público, mas não investem no turismo interno. A alegação de que movimentam a economia dos municípios, como o Carnaval de Salvador, é falsa e lesiva para a cadeia produtiva que se dedica à atividade há mais de 40 anos, paga impostos ao Estado que a ignora, e hoje vive de eventos e trabalhos temporários.  No caso de Salvador, uma boa e baratíssima limpeza no centro da cidade – recuperação física e social da Praça da Sé – atendimento aos indigentes, segurança e privacidade, seria muito melhor para o turismo da Bahia. Mas há outros interesses!

Os Convention Bureaus, membros dos Conselhos de Turismo e parceiros do Estado, existem para divulgar as cidades e a infra-estrutura para sediar eventos, que são direcionados para hotéis, agências e transportadores parceiros de ambos. Os resorts que já confinam as pessoas pela distância dos atrativos e sistema all inclusive, e os hotéis da cidade, também parceiros, oferecem modernos centros de convenções, isolando milhares de pessoas de atrativos famosos e da cadeia produtiva que os viabilizam. Contraditoriamente, ou propositalmente para vender estes equipamentos privados, o Centro de Convenções da Bahia está em péssimo estado, vergonhoso, tema de milhares de reclamações. É o patrimônio e a imagem da Bahia e do Brasil em jogo!

Muitas pessoas procuram destinos como Salvador, Rio de Janeiro e Recife e escutam ‘não há vaga’, às vezes por causa de eventos simultâneos. Porém, as pessoas que participam de eventos são induzidas, não escolhem, permanecem pouco tempo nesses lugares, não visitam nem gastam nos atrativos e equipamentos locais nem do entorno, pela escassez de tempo disponível e compromissos em suas empresas e cidades. E pior, muitas delas não iriam, pois certos lugares não as interessam, e algumas empresas são obrigadas a convidar seus parceiros e expor-se. Logo, qualquer falha significa um agente multiplicador a menos. No XXIV Congresso Mundial de Avicultura, realizado em agosto de 2012, um representante de uma empresa do sul do Brasil que convidou seus parceiros estrangeiros para vir a Salvador, estava frustrado e constrangido com o estado de abandono da cidade

As instâncias do Turismo do país insistem nesse modelo e tentam convencer a sociedade das benesses da atividade, mas, na prática, milhares de empresas e pessoas do turismo interno do país estão prejudicadas, muitos fecharam as portas ou abandonaram a profissão, pois sofrem com a realidade contrária a propaganda paga com dinheiro público, e não tem organização, instituições representativas ou defensores públicos. Os centros turísticos do Brasil precisam assumir a responsabilidade com os atrativos, organizar-se, discutir e entender-se com os operadores e separar as funções, dignificar seu trabalho e ganho, representar-se nacionalmente, e cuidar do turismo interno do país.

O Ministério do Turismo não fiscaliza a utilização dos recursos, não há técnicos no governo, interesse dos operadores, nem investimentos em Turismo Cultural ou de Lazer. Lugares como Rio de Janeiro, Parati, Salvador, Cachoeira, Recife, Olinda, Foz de Iguaçu, Manaus, Ouro Preto, e outros, se bem administrados, seriam naturalmente escolhidos para os eventos que divulgariam suas qualidades e as do Brasil, e conquistariam aqueles que não têm interesses nelas. Além disso, os eventos também devem ser direcionados para lugares interessantes e desconhecidos, mostrando-os, criando novas opções para os potenciais turistas, operadores, gestores e lugares.

Esta má gestão do turismo interno do país já desperdiçou a oportunidade de colocar o Brasil, que é atrativo natural, cultural e de lazer, entre os principais centros turísticos do mundo, as verbas para a preparação tem sido más utilizadas e não há tempo para fazer o que era preciso – aeroportos, transporte moderno, mobilidade, recuperação de atrativos como o Pelourinho, mão de obra especializada, serviço de praia, serviço médico, limpeza e segurança - e a imagem do país poderá ficar pior, exatamente porque estará no centro das atenções mundiais durante a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016.

José Queiroz, guia de turismo, agente de viagem, especializado em Turismo Receptivo

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