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Olhar para a frente?
13/03/2013 as 18:06 h  Autor Wladimir Pomar  Imprimir Imprimir
FHC é um homem honrado. Com razão, ele acusa seus opositores de doentios por ficarem relembrando desmandos do seu governo. Lula realmente estava errado. Não deveria deixar os petistas ficarem toda hora fazendo isso, doentiamente, a conta-gotas. Logo que assumiu o governo deveria ter feito uma auditoria da quebradeira geral que o neoliberalismo provocou desde 1991 e encerrado o assunto. Para que atormentar um homem honrado?

É lógico que isso poderia ter levado os mandatários da época a serem processados por crimes de lesa-pátria. Mas FHC, como homem honrado, poderia jogar a culpa sobre Malan e seus colegas da PUC. Com isso se livraria, honradamente, da responsabilidade pela destruição de parte importante do parque produtivo brasileiro, pela extensão da miséria a níveis insuportáveis, pelo nebuloso limite da irresponsabilidade nas privatizações de bens públicos e por outros malfeitos.

FHC também tem razão em culpar as atuais forças governistas de precipitarem a campanha eleitoral. Lula deveria ter deixado o partido da mídia continuar especulando que ele seria o candidato do PT, ao invés de Dilma, nas eleições de 2014. Mas, ao invés de aceitar essa confusão numa boa, Lula decidiu colocar as coisas em pratos limpos, dizendo que Dilma era a candidata dele. Com razão, o honrado FHC ficou sentido com tanta precipitação.

Os petistas e demais opositores do neoliberalismo deveriam aprender com o honrado FHC que as conjunturas mudam. O que é possível fazer numa dada fase muitas vezes não pode ser feito em outra. As políticas podem e devem ser aperfeiçoadas. Portanto, deveriam perguntar o que mudou no país em cada governo, em que direção e com qual velocidade, evitando fazer comparações sem sentido.

Mas o infantilismo doentio petista pensa que a história pode ser reescrita para fazer as estatísticas falarem o que lhes interessa, como nos museus soviéticos que o honrado FHC parece conhecer muito bem. Por isso, com razão, ele recomenda que o PSDB não caia nessa armadilha. Afinal, o governo petista estaria se enredando em crescentes dificuldades, embora o trem ainda não tenha descarrilado e a presidenta Dilma continue em alta.

Deve-se considerar que o honrado FHC apenas alertou que as balizas que asseguraram crescimento com estabilidade – câmbio flutuante, metas inflacionárias e responsabilidade fiscal – se tornam cada vez mais referências longínquas. Como ficou provado em seus oito anos de governo, de crescimento com estabilidade ele entende, embora seu trem tenha descarrilado completamente, certamente por conta de auxiliares inaptos e ineptos.

De qualquer modo, os petistas e outros oposicionistas doentios de seu governo, ao invés de ficarem com picuinhas, deveriam ouvir o alerta do honrado FHC. Ele está preocupado que, no longo prazo, o fantasma da vulnerabilidade externa volte a preocupar. Não esqueçamos que ele teve aulas de alto nível com o FMI, em 1998. E que elas foram fundamentais para salvar... Deixa pra lá! Para que fazer novas picuinhas?

O importante, como ele reitera, é olhar para a frente e deixar as picuinhas para quem gosta delas. Segundo ele, já se veem no horizonte sinais de retomada na economia mundial. Uma onda de inovações, provavelmente capitaneada pelos Estados Unidos, deve promover uma nova investida capitalista mundial. O gás de xisto e os novos métodos de extração de petróleo tornarão aquele país a grande potência energética.

O honrado FHC não tem dúvidas de que uma nova geopolítica se desenha. Haverá um polo chinês-asiático e um polo norte-americano. Diante disso, e olhando para a frente, o honrado FHC, em sua modéstia inquestionável, se pergunta como ficará o Brasil. Pendendo para a Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), de inspiração chavista? Ficará à margem da nova aliança atlântica proposta pelos Estados Unidos que, por agora, contempla apenas a América do Norte e a Europa?

Fortalecerá seus laços com o mundo árabe longínquo? Ou este terminará por se aconchegar na dupla formada pela China e pela Índia, carentes de energia? Como o Brasil se situará na dinâmica da nova fase do capitalismo global? Acelerará o crescimento com truques e maquiagens, a exemplo de subsídios tópicos, exceções de impostos setoriais, salvamento de empresas via hospital BNDES ou Caixa Econômica?

Olhando para frente, o honrado FHC não tem dúvidas de que, junto com os Estados Unidos, Canadá, México e Argentina, o Brasil pode ter um lugar ao sol. Da mesma forma que teve quando fez o Plano Real, ajustou a economia a essa aliança com o grande irmão do Norte e, segundo ele, iniciou políticas de inclusão social.

Na época, o pessoal doentio da oposição e do PT não entendeu do que se tratava. Queria dar o calote da dívida externa e sustentava o inadequado programa Fome Zero, que jamais teria saído do papel. O honrado FHC garante que teriam sido as bolsas que o PSDB introduziu que salvaram o PT. Não riam! O PT apenas tardiamente se deu conta de que era melhor fazer uma política de transferência direta de rendas.

Os oposicionistas e petistas da época teriam se aferrado à ideia de que a globalização seria uma ideologia – o neoliberalismo – e não a maneira contemporânea de organizar a produção com base em novas tecnologias e novas normas. Portanto, estariam repetindo o mesmo equívoco, com uma leitura míope do mundo e distorcida do papel do Estado.

Em contrapartida, portanto, o honrado FHC oferece a visão alternativa e o programa contemporâneo de ressurgimento do neoliberalismo. Propõe abertamente aferrar-se à aliança com os Estados Unidos, que provavelmente capitaneará a nova fase de globalização. Retoma a proposta de reduzir o papel do Estado. E não descarta a transferência direta de rendas, embora dentro dos limites mínimos, como em seu governo passado.

Em outras palavras, seu futuro é o passado. Não há dúvida de que o honrado FHC tem razão em se agastar com as picuinhas. Os petistas e oposicionistas a seu governo não conseguem olhar para a frente da mesma forma que ele. Mas não deixa de ser impressionante que ele, com toda a sua honradez, da mesma forma que Brutus e os Bourbons, nada tenha aprendido com a história. E a única coisa que tenha à frente seja um espelho.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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