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A imprensa oficialíssima
15/02/2013 as 17:59 h  Autor José Cleves  Imprimir Imprimir
Com a troca de governo na maioria das prefeituras do país, grande parte da imprensa também tem novos patrões. É prática antiga, principalmente no interior, os veículos de comunicação local sobreviverem das verbas, jabás e mimos oficiais em troca do silêncio. Em alguns casos, o dono vira até servidor público com cargo de confiança do prefeito. São elementos contratados para zelar pela imagem do mandatário, do seu CPF e de seus chegados, com o dinheiro do contribuinte. De quebra, seus veículos de comunicação são também agraciados com generosas verbas públicas. Alguns destes pseudojornalistas são incluídos na folha de pagamento da prefeitura para silenciá-los, sem qualquer outro favor.

Nada tenho contra jornalistas que prestam assessorias e/ou trabalham para o governo. Pelo contrário. A assessoria de imprensa é um nicho de mercado muito valorizado e respeitado. O dia em que decidir não mais mexer com jornal, vou tentar ser assessor também porque vivo do jornalismo e não sei fazer nada na vida além disso. Sou contra o dublê de assessor de imprensa e repórter ao mesmo tempo – um servindo ao rei e o outro tentando agradar os súditos – porque isso é impossível. Não dá para acender duas velas na nossa profissão. Ou servimos ao interesse público, que é a missão do jornalista que se dedica à reconstituição de fatos aleatórios, ou ao interesse privado.

Essa dualidade é muito ruim para a democracia. O mais revoltante é que a classe jornalística não fiscaliza nada e com isso permite que falsos formadores de opinião emplaquem, oficialmente, seu veículo de aluguel no governo. Tudo – CNPJ e CPF – sustentado pelo povo. O bom da democracia é a liberdade que a imprensa tem para fiscalizar e denunciar os desmandos no poder público. É missão dos veículos de comunicação tratar os detentores de cargos eletivos com olhar crítico de quem tem a obrigação de vigiar o dinheiro do contribuinte. Se isso não ocorre, por conta da imoralidade, para que serve então a liberdade de escrever e falar em nosso meio?

“Propriedade intelectual”


O jornalista tem o direito de expressar o livre pensamento, contra ou a favor, como ocorre com qualquer cidadão, porque este é um direito garantido no artigo 5º da CF (fato este que levou, inclusive, o STJ a não exigir mais o diploma para o exercício da profissão, exatamente por entender que qualquer cidadão pode escrever ou falar o que bem desejar neste país). Sem comentários.

É aquele negócio. Quem pode tudo não pode nada. O jornalista não pode, de jeito algum, omitir crimes ou abdicar de suas obrigações deontológicas – e uma delas, talvez a mais importante, é a de fiscalizar os homens públicos. Não se pode admitir, por exemplo, que o dono de um jornal altere o contrato social da empresa para prestar serviços ao governante, porém imbuído da condição tácita de proprietário do veículo que é gerido de forma a atender o interesse do agente público que o contratou.

Falo isso com conhecimento de causa. Não vou dar nomes porque essa é uma prática tão comum no Brasil que grande parte da imprensa, inclusive das capitais, costuma ter a sua “propriedade intelectual” alterada de quatro em quatro anos ou conforme a grana que entra no bolso. Tudo às escondidas, embora a maioria destes incestos seja de domínio público.

O bem e o mal

Durante muitos anos, o editor-geral do jornal Estado de Minas, dos Diários Associados, comandava a imprensa do governo local. Outro profissional assumia o seu lugar na Redação, mas era de araque. O cara fazia o jogo da empresa e do governo, formando opinião conforme a conveniência destes. Aliás, o governo sempre mandou no “jornal dos mineiros”, onde trabalhei vários anos e convivi com essa fraude que sempre combati. O mesmo sistema opera em outros grandes veículos de comunicação do país. As formas são variadas, mas o objetivo é o mesmo: servir ao rei em troca de dinheiro, escondendo e plantando notícias. Um crime.

Basta um olhar atento nas nossas principais publicações diárias e semanais para se notar que nem todo assunto é tratado de forma justa. Nem sempre prevalece a ideologia, o bom-senso, a verdade. É comum a imprensa escarafunchar um fato em busca de um resultado desejado e isso ocorre de forma brutal como os discursos demagógicos de políticos fisiologistas. Pergunto: como vamos combater a corrupção neste país se a imprensa não exerce o seu papel de fiscalizar os agentes públicos com responsabilidade? Como pode um país crescer e se desenvolver, como pediu a presidente Dilma Rousseff aos prefeitos, no encontro de Brasília, recentemente, se muitos deles não são vigiados pela imprensa de sua cidade?

Será que não basta a utilização da verba pública como moeda de compra da mídia? Felizmente, não são todos os veículos de comunicação que se prostituem. Menos mal. Conheço donos de jornais que se abastecem de generosas verbas oficiais, porém sem hipotecar a independência como garantia da oferta. Da mesma forma, conheço políticos justos e corajosos que não temem chantagens de picaretas, motivo pelo qual são, às vezes, perseguidos e injustiçados pelos maus profissionais da imprensa. É o preço da desarmonia entre o bem e o mal.

Faz parte

É certo que comunicação de massa é um ramo de negócio vulnerável, pouco lucrativo e difícil de ser tocado sem o apoio dos governantes. Os impressos, por exemplo, são onerosos. A matéria-prima é cara, a operacionalidade é complexa e a mão de obra é igual em qualquer negócio, muito cara devido aos custos sociais. Então, para manter o veículo, o dono tem que se virar nos trinta e ter, no mínimo, direito às verbas oficiais, até porque a grana existe para isso. É obrigação do prefeito divulgar os seus atos, informar a população sobre os eventos e fazer comunicados de interesse público. Para que isso seja feito, é necessário lançar mão da mídia local.

A mídia, portanto, exerce esse importante papel de divulgar os feitos da prefeitura, porém não deve nunca abrir mão da critica construtiva e omitir fatos de interesse da coletividade. Até entendo que um ou outro acontecimento deva ser ignorado, principalmente quando a ação é primária e inconvincente – e/ou partidária –, embora escandalosa e fundamentalmente apreciativa.

A missão do jornalista não é correr atrás de carniça. Infelizmente, 90% da demanda jornalística costumam ser de notícia ruim e isso ocorre por duas razões: primeiro, porque o mundo é feito de maldades e fatalidades, fatos esses que, na maioria dos casos, independem da ação direta do homem (as catástrofes, principalmente); segundo, porque o crime faz parte da natureza humana e a sua prática interessa à sociedade como um todo.

Obter informações e publicá-las

No Brasil, por exemplo, o crime de corrupção devasta os cofres públicos e cabe aos meios de comunicação torná-lo público. É missão do jornalista ficar de olho nos ocupantes de cargos públicos – prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores e presidente da República. O repórter tem a obrigação de acompanhar os trabalhos legislativos e os atos do executivo, para melhor informar o público sobre os acontecimentos.

O jornalista somente é desobrigado a fazer isso quando está revestido da condição de assessor de imprensa. O profissional dessa área presta serviços à pessoa física, governo ou empresa, sem qualquer compromisso com o interesse público. Neste caso, vale o produto que ele defende. Já o que reconstitui fatos aleatórios serve ao interesse público e deve agir com equidade e isenção para não enganar a opinião pública. Se o que escreve é impublicável para o dono do veículo, por razões comerciais ou conflito de pensamento, cabe ao patrão jogar tudo no lixo. Afinal, a empresa é dele. O repórter segue a sua vida cumprindo o seu dever, sem que alguém possa impedi-lo de obter informações e de procurar espaços para publicá-las.

Essa é a nossa missão.

Por José Cleves
Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/

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