A violência contra a mulher continua sendo uma das mais graves violações de direitos humanos no Brasil. Apesar de avanços legislativos e maior visibilidade do tema nas últimas décadas, os números ainda revelam um cenário alarmante. Ao mesmo tempo, o crescimento das denúncias levanta uma pergunta importante para especialistas e formuladores de políticas públicas: estamos diante de um aumento real da violência ou de uma sociedade que finalmente começa a romper o silêncio?

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Os dados mais recentes indicam que o problema permanece estrutural e complexo. Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher, em 2024 o Brasil registrou 1.450 feminicídios, crime que caracteriza o assassinato de mulheres em razão do gênero. Isso significa que, em média, quatro mulheres são mortas por dia no país.
Quando se ampliam os registros para tentativas e casos consumados, os números são ainda mais impactantes. Um levantamento do Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina apontou que 6.904 mulheres foram vítimas de feminicídio consumado ou tentado em 2025, quase seis mortes ou tentativas por dia.
Além das mortes, a violência cotidiana aparece nas estatísticas de agressões e abusos. O Brasil registrou 71.892 casos de estupro de mulheres em 2024, o que representa cerca de 196 estupros por dia.
Esses números, no entanto, contam apenas parte da história.
O aumento das denúncias
Um dos fatores que tem chamado a atenção das autoridades é o crescimento do número de denúncias. Em 2024, a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180,registrou 132.084 denúncias de violência, um aumento de 15,2% em relação a 2023. O serviço realiza atualmente mais de dois mil atendimentos por dia.
Para muitos especialistas, esse aumento não significa necessariamente que a violência tenha crescido na mesma proporção. Ele pode indicar também que mais mulheres estão encontrando canais para denunciar e menos medo de falar.
Durante décadas, a violência doméstica foi tratada como um problema privado, restrito às paredes da casa. Muitas vítimas conviviam com agressões físicas, psicológicas e patrimoniais sem buscar ajuda, seja por dependência econômica, medo do agressor ou falta de apoio institucional.
Hoje, campanhas públicas, leis mais rigorosas e redes de proteção têm contribuído para quebrar esse silêncio histórico.
A violência que acontece dentro de casa
Outro dado importante revela onde essa violência ocorre. A maior parte dos casos ainda acontece dentro do ambiente doméstico e familiar. Em muitas denúncias registradas no Ligue 180, o agressor é o companheiro ou ex-companheiro da vítima, evidenciando que a violência de gênero frequentemente se manifesta nas relações afetivas.
Esse padrão reforça que a violência contra a mulher não é apenas um problema de segurança pública, mas também de cultura, desigualdade e relações de poder.
O recorte social da violência
Os dados também mostram desigualdades profundas. Mulheres negras — pretas e pardas — representam a maioria das vítimas registradas nos sistemas de denúncia e saúde pública, evidenciando que gênero, raça e condição social se cruzam no fenômeno da violência.
As faixas etárias mais atingidas estão entre 30 e 44 anos, período em que muitas mulheres estão no auge da vida profissional e familiar.
Esses números demonstram que a violência de gênero não atinge todas as mulheres da mesma forma. Ela é agravada por desigualdades históricas e estruturais.
A importância de falar sobre o problema
Nos últimos anos, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e políticas públicas ampliaram o debate sobre violência contra a mulher. Marchas, campanhas educativas e discussões nas redes sociais ajudaram a trazer o tema para o centro da agenda pública.
Esse processo tem um efeito poderoso: quando a sociedade fala sobre o problema, as vítimas deixam de se sentir sozinhas.
Ao mesmo tempo, cresce a compreensão de que a responsabilidade de enfrentar a violência não é apenas da vítima. É da sociedade, das instituições e do Estado.
Entre avanços e desafios
O Brasil possui hoje uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência doméstica, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio. No entanto, leis por si só não resolvem um problema que está enraizado em estruturas sociais profundas.
É preciso investir em educação, prevenção, proteção às vítimas, formação de profissionais da segurança pública e fortalecimento das redes de apoio.
Também é fundamental ampliar políticas que garantam autonomia econômica para as mulheres, pois muitas permanecem em relacionamentos violentos por falta de alternativas.
Romper o silêncio
O aumento das denúncias pode ser interpretado como um sinal de alerta, mas também como um sinal de esperança.
Quando uma mulher denuncia, ela rompe um ciclo de silêncio que historicamente protegeu o agressor. Quando a sociedade escuta e acolhe essa denúncia, dá um passo importante para transformar a realidade.
Combater a violência contra a mulher não é apenas proteger vidas, é defender a dignidade humana, a igualdade e a justiça.
E essa luta precisa continuar todos os dias.
Por
Adriana Ramalho, bacharel em Direito, poli?tica (vereadora em SP 2016/2020), ativista social e palestrante sobre combate a viole?ncia dome?stica, alienac?a?o parental, empreendedorismo feminino, e sau?de mental.