Barreiras Cartuchos
 
> Principal > Notícias Nacionais > Violência Urbana > Por que os homens matam as mulheres
Por que os homens matam as mulheres
Data 15/07/2010 as 12:25 h  Autor administrador  Vezes 1693  Imprimir Imprimir
A opinião é de Michela Marzano, filosofa italiana, doutora em filosofia pela Scuola Normale Superiore di Pisa e atual professora da Universidade de Paris V (René Descartes). O artigo foi publicado no portal do jornal La Repubblica, 14-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eles continuam sendo chamados de crimes passionais. Porque o motivo seria o amor. Aquele que não tolera incertezas e falhas. Aquele que é exclusivo e único. Aquele que leva o assassino a matar a mulher ou a companheira justamente porque a ama. Como diz Don José na obra de Bizet antes de matar a amante: "Fui eu que matei a minha amada Carmen".

Mas o que resta do amor quando a vítima nada mais é do que um objeto de posse e de ciúmes? Que papel ocupa a mulher dentro de uma relação doente e obsessiva que a priva de toda a autonomia e liberdade?

Durante séculos, o "despotismo doméstico", como chamava o filósofo inglês John Stuart Mill no século XIX, foi justificado em nome da superioridade masculina. Dotadas de uma natureza irracional, "uterina", e úteis somente – ou principalmente – para a procriação e para a gestão da vida domésticas, as mulheres tinham que aceitar aquilo que os homens decidiam para elas (e para o seu bem) e submeter-se à vontade do "pater familias".

Desprovidas de autonomia moral, eram obrigadas a encarnar toda uma série de "virtudes femininas", como a obediência, o silêncio, a fidelidade. Castas e puras, tinham que se preservar para o legítimo esposo. Até à renúncia definitiva. Ao desinteresse, substancialmente, pelo próprio destino. A menos que aceitassem a exclusão da sociedade. Serem consideradas mulheres de má vida. E, em casos extremos, sofrer a morte como punição.

As lutas feministas do século passado deveriam ter feito com que as mulheres saíssem desse terrível impasse e deveriam ter esmigalhado definitivamente a divisão entre "mulheres de bem" e "mulheres de má vida". Em nome da paridade homem/mulher, as mulheres lutaram duramente para reivindicar a possibilidade de ser, ao mesmo tempo, mulheres, mães e amantes. Como dizia um slogan de 1968: "Não mais putas, não mais santas, mas apenas mulheres!".

Mas as relações entre os homens e as mulheres mudaram verdadeiramente? Por que os crimes passionais continuam sendo considerados "crimes à parte"? Como é possível que as violências contra as mulheres aumentem e sejam quase transversais a todos os âmbitos sociais?

Quanto mais a mulher busca se afirmar como igual em dignidade, valor e direitos ao homem, mais o homem reage de modo violento. Só o medo de perder algumas migalhas de poder o torna vulgar, agressivo, violento. Graças a algumas pesquisas sociológicas, hoje sabemos que a violência contra as mulheres não é mais só o único modo em que um louco, um monstro, um doente pode se expressar. Um homem que provém necessariamente de um círculo social pobre e inculto.

O homem violento pode ser de boa família e ter um bom nível de instrução. Pouco importa o trabalho que ele faça ou a posição social que ocupe. Trata-se de homens que não aceitam a autonomia feminina e que, muitas vezes por fraqueza, querem controlar a mulher e submetê-la à sua própria vontade. Às vezes são inseguros e têm pouca confiança em si mesmos, mas, ao invés de procurar entender o que exatamente não vai bem em sua própria vida, acusam as mulheres e as consideram responsáveis pelos seus próprios fracassos. Progressivamente, transformam a vida da mulher em um pesadelo. E quando a mulher busca refazer a vida com um outro, procuram-na, ameaçam-na, batem nela, às vezes matam-na.

Paradoxalmente, muitos desses crimes passionais nada mais são do que o sintoma do "declínio do império patriarcal". Como se a violência fosse o único modo para evitar a ameaça da perda. Para continuar mantendo um controle sobre a mulher. Para reduzi-la a mero objeto de posse. Mas quando a pessoa que se ama nada mais é do que um objeto, não só o mundo relacional se torna um inferno, mas o amor também se dissolve e desaparece.

Certamente, quando se ama, se depende em parte da outra pessoa. Mas a dependência não exclui jamais a autonomia. Pelo contrário, às vezes é justamente quando somos conscientes do valor que uma outra pessoa tem para nós que podemos entender melhor quem somos e o que queremos.

Como escreve Hannah Arendt em uma carta ao marido, o amor permite que nos demos conta de que, sozinhos, somos profundamente incompletos, e que só quando estamos ao lado de uma outra pessoa é que temos a força para explorar zonas desconhecidas do nosso próprio ser.

Mas, para amar, é preciso também estar pronto para renunciar a qualquer coisa. O outro não está à nossa completa disposição. O outro faz resistência diante da nossa tentativa de tratá-lo como uma simples "coisa". É tudo isso que os homens que matam por amor esquecem, não sabem ou não querem saber. E que pensam que estão protegendo a própria virilidade negando ao outro a possibilidade de existir.

http://www.ihu.unisinos.br/
Comente via Facebook

Mais Notícias
Não há comentários.
Redes Sociais
TWITTER GOOGLE + FACEBOOK YOUTUBE LINKEDIN INSTAGRAM
img
img




RSS  Artigos Artigos

Quem tem fé agrada a Deus, pois ouve a Sua Palavra e não a despreza. Não há uma pessoa sequer que, tendo escutado a pregação do Evangelho, não saiba o que fazer. Essa certeza que chega ao coração de quem dá ouvidos às Escrituras é a fé. A pessoa que a descarta jamais...

Pelo futebol jogado na Copa, o Brasil deveria ter sido eliminado na primeira fase. Jogou mal contra a Croácia, com apoio do árbitro e de um poste no gol deles. O gol de Neymar e o de Oscar eram defensáveis. Mereceu perder para o México e jogou para o gasto com Camarões, cuja seleção o Bahia daria...
Num passe de mágica, que o jeitinho brasileiro conhece bem, conseguiram ludibriar os jornalistas estrangeiros, durante a Copa do Mundo, escondendo deles o Brasilquistão (o Brasil que não deu certo: violento, desigual, desumano, concentrador de riquezas, pobre, sujo, sangrento, corrupto, serviços públicos de quinta categoria etc.). Mostraram para eles o....
E DEUS CHAMOU ARIANO SUASSUNA! CHAMOU PARA JUNTO DE SI UM GIGANTE! DESTA VEZ, UM DOS MAIORES GIGANTES - SE NÃO O MAIOR - QUE O BRASIL POSSUÍA! COM A PARTIDA, SEM RETORNO, DE ARIANO SUASSUNA, NOSSO PAÍS QUE JÁ É RICO EM ANÕES, FICARÁ BEIRANDO A...
No começo das celebrações da Copa no Brasil, uma das imagens que o campo de busca do Google publicou foi a de um amontoado de habitações precárias, com cabos de eletricidade pendurados irregularmente em todo lugar, e uma bola de futebol que ricocheteava entre os poucos espaços. De fato, esta é a imagem do Brasil que...
img
img
img
img
Dicas de leitura
img
Os sonhos de infância de Leonard foram destruídos após a morte de seu pai, um exímio fotógrafo. O garoto sonhava em comprar uma moto e poder, junto de seu pai, viajar pelo mundo e registrar as belas paisagens que cercam o condado de Somerset, Inglaterra.  Amparado por um...
Drew Evans aparentemente está resfriado. Mais precisamente com o vírus da influenza. Acamado em seu luxuoso apartamento, ele não está nos seus melhores momentos – barba por fazer, vestindo uma camisa suja e uma calça rasgada. O momento é de reflexão para...
A constatação de que cada vez mais as pessoas estão se perdendo na busca incessante pela felicidade, com dificuldades em encontrar o caminho ou até desistindo dele, levou Heloísa Capelas, especialista em desenvolvimento humano há cerca de 30 anos, a compartilhar seu conhecimento em...
img
Enquete
img
Em sua opinião, qual seleção será campeã da Copa do Mundo 2014?
Argentina, por quê?
Alemanha, por quê?
Classificados
img



img
img
img
img
Entretenimento
img
img
Galeria de Fotos
img
img
img
img
img
TV Novoeste
img
Thumbnail
img
img