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Agricultura no Cerrado ignora viabilidade econômica e riscos climáticos, mostra análise
06/12/2017 as 16:27 h  Autor Editoria  Imprimir Imprimir

Boa parte da agricultura praticada no Cerrado, segundo maior bioma do Brasil e lar de 5% da biodiversidade do planeta, tem sido praticada de maneira irracional, estimulando o desmatamento enquanto traz alto risco para o negócio. Segundo uma análise divulgada hoje em Brasília pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), durante o Seminário Nacional do Cerrado, cerca de 5,6 milhões de hectares da área de agricultura anual da safra 2015/2016 no bioma, de 20,7 milhões de hectares no total, está localizada em áreas de médio ou alto risco produtivo, com clima e solo desfavoráveis à atividade.

Para se tornarem viáveis, os produtores precisam investir pesadamente em insumos, e ainda têm de lidar com índices irregulares de chuva, por exemplo.

Em entrevistas realizadas pelo IPAM no Matopiba, região de Cerrado entre os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, 55% dos produtores entrevistados registraram perda de produtividade nas últimas oito safras. Desses, 52% afirmaram que as causas são climáticas, como redução ou atraso do período chuvoso. As entrevistas foram feitas em 91 fazendas de diferentes tamanhos e níveis médios de pluviosidade.

Ao mesmo tempo, há pelo menos 33,2 milhões de hectares de pastagem plantada, com baixa produtividade, que poderiam ser aproveitadas para a agricultura em todo o Cerrado, em áreas de baixo risco produtivo.

“Não é preciso desmatar mais nenhum hectare de Cerrado, e sim implementar políticas de inteligência territorial para evitar o desperdício”, afirma o pesquisador Tiago Reis, um dos responsáveis pela análise. “Grande parte do desmatamento no Cerrado é especulativo e também irracional, do ponto de vista agrícola e econômico. A agricultura deve se reorientar para ocupar áreas de pastagens com baixa produtividade e rentabilidade.”

Os dados foram apresentados no “Seminário Nacional do Cerrado”, organizado pelo IPAM, WWF e parceiros, que reuniu representantes do governo, incluindo o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, sociedade civil, universidades e setor privado ontem, terça (05) em Brasília.

Essa deficiência de planejamento do uso do solo é um dos vários fatores que levaram o bioma a perder metade de sua vegetação nativa – 10% somente entre 2001 e 2016 – e numa velocidade mais alta do que o observado na Amazônia recentemente.

O Matopiba representa 62,5% do desmatamento de vegetação nativa do cerrado registrado pelo governo entre 2013 e 2015. Todos os dez municípios que mais desmatam nesse período estão localizados nessa região. Isso acontece pelo intenso processo de especulação fundiária na região, pela logística favorecida pela proximidade de portos estratégicos, como o de Itaqui, no Maranhão e, também, por produtores que fogem das regras mais rígidas que prevalecem na Amazônia. “É preciso minar a especulação fundiária impondo barreiras à expansão desordenada e irracional”, diz Reis.

Regras mais rígidas e aumento em áreas protegidas

De acordo com o Código Florestal, os imóveis rurais no Cerrado precisam preservar 35% de sua área na forma de reserva legal dentro da Amazônia Legal e 20% fora, enquanto na Amazônia o índice é de 80%. A criação de incentivos econômicos à conservação e à restauração previstos no Código Florestal, para evitar a conversão de vegetação nativa excedente dentro de fazendas consolidadas, poderia promover a recuperação dos passivos ambientais.

Torna-se mais importante do que nunca o planejamento inteligente do uso do solo, conciliando proteção do bioma com produção eficaz. Outras ações recomendadas envolvem um pacto multissetorial, incluindo todos os elos das cadeias produtivas agropecuárias, para não comercializar mais produção associada ao desmatamento no Cerrado; respeito aos direitos territoriais e valorização das populações tradicionais, que contribuem para a conservação do Cerrado; e mais pesquisa e monitoramento, para conhecer melhor o patrimônio genético do bioma, as relações e impactos da vegetação nativa sobre os ciclos hidrológicos tanto em processos geológicos como atmosféricos.

Outra questão fundamental é criar mais áreas protegidas no Cerrado: apenas 8% do bioma está nessa categoria. Dobrar esse índice, incluindo a destinação das terras federais e estaduais não destinadas, teria um impacto considerável na preservação.

Em outubro, empresas líderes no mercado internacional como Carrefour, McDonald’s, Nestlé, Unilever e Walmart lançaram uma carta em que reconhecem a importância do Cerrado por seu papel na mitigação das mudanças climáticas. A carta apoia o Manifesto do Cerrado, um documento divulgado em setembro por organizações ambientalistas, que pede para as empresas que compram soja e carne do Cerrado defendam o bioma.

As empresas afirmam que estão empenhadas em deter a perda de vegetação nativa associada à produção de produtos agrícolas e se comprometem em trabalhar com a indústria, produtores, governos e a sociedade civil para proteger paisagens naturais de importância mundial, dentro de um cenário de boa governança e políticas de planejamento de terras.

Ascom  IPAM Amazônia

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