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Paul Krugman e as fantasias libertárias
21/08/2014 as 16:33 h  Autor David S. D'Amato  Imprimir Imprimir
Em artigo recente para o New York Times, Paul Krugman criticou os libertários por “viverem em um mundo de fantasia”, afirmando que há, normalmente, bons motivos para os burocratas ignorarem o julgamento individual em favor de suas próprias preferências. Quando alguém afirma que se opõe a um livre mercado pleno, o que essa pessoa na verdade diz é que quer decidir quais trocas e formas de cooperação pacíficas devem ser permitidas. Uma vez que eu não considero que um grupo especial de pessoas deva ter o direito arbitrário de chefiar ou dominar as outras através da violência, naturalmente eu não acredito na restrição das trocas voluntárias que beneficiam todas as partes interessadas e não prejudicam mais ninguém. Porém, espera-se que sempre aceitemos o Julgamento dos Especialistas, então ao que parece eu devo ser pouco esclarecido ou no mínimo antissocial por não aceitar limites e regulações “razoáveis” (razoabilidade essa definida, é claro, por burocratas especializados) às trocas entre adultos em mútuo consentimento.

Paul Krugman, provavelmente inconscientemente, se movimenta de forma interessante sempre que articula sua visão sobre o que guia as ações dos agentes do governo em oposição a atores do mercado. Quando ele fala sobre estes últimos, ele presume, talvez corretamente, que sejam motivados puramente pelo interesse pessoal, pela ganância e pelos benefícios particulares que podem ser conseguidos, a despeito de quem seja prejudicado, com a poluição de recursos naturais ou com a venda de produtos perigosos aos consumidores, por exemplo. Tudo bem, mas ao considerarmos as motivações dos burocratas do governo, deveríamos ter as mesmas premissas, certo? Não exatamente. Veja bem, de acordo com a visão de mundo de Krugman, simplesmente não há motivos para pensar que os pensadores da escolha pública realmente tenham feito contribuições significativas ao nosso entendimento das maquinações políticas, que devamos olhar para a política “sem romance” e considerar as motivações dos poderosos no governo da mesma forma que as consideramos nas empresas. Não importa o trabalho de gente como Butler Shaffer, que mostrou que as grandes empresas há muito tempo fazem campanhas em favor das regulamentações para “obter benefícios que não eram capazes de conseguir por conta própria”. Para uma empresa ou para qualquer outro ator dentro do mercado, a falta de flexibilidade e capacidade de resposta às mudanças significa entropia.

Shaffer demonstrou que empresas estabelecidas e bem conectadas que não desejem sofrer mudanças, é mais fácil tentar mudar o ambiente da competição, transferindo sua entropia para os concorrentes. Os meios legais e regulatórios se apresentam. No mundo de Krugman, porém, em que o estado benfeitor nos foi dado pela Graça Divina, é inconcebível que os reguladores possam ter intenções diversas do mais puro altruísmo. Em sua cabeça, uma vez que já estamos próximos a um mercado desregulado atualmente, precisamos de mais intervenções benevolentes advindas dos burocratas do governo em Brasília, que são superiores moralmente a nós. Krugman é incapaz de ver que seu cabresto ideológico esconde o fato de que já vivemos sob um estado corporativo centrista (ou seja, fascista) e que esse estado foi incapaz de agir da forma que ele deseja.

Krugman, portanto, é o fantasista utópico com quem ele próprio tanto se preocupa. Sua fé na benevolência do poder centralizado é tão grande que supera todas as suas crenças sobre as tendências do interesse particular sem freios. Os Krugmans do mundo ainda não aprenderam que os burocratas do governo pensam da mesma forma que os agentes do setor privado, os gerentes corporativos que são os vilões na narrativa social-democrata. Grandes instituições burocráticas, tanto “públicas” quanto “privadas”, com ou sem fins lucrativos, inculcam uma ortodoxia essencialmente hierárquica, uma deferência às decisões centralizadas e ao julgamento superior dos especialistas. No livro Bureaucracy, de 1859, Richard Simpson explicava a mentalidade burocrática:

“[A] ideia de burocracia não está completa até que acrescentemos uma presunção pedante de capacidade de dirigir nossas vidas, saber o que é melhor para nós, mensurar nosso trabalho, supervisionar nossos estudos, prescrever nossas opiniões, responsabilizar-se por nós, nos colocar na cama, cobrir, colocar um gorro em nossa cabeça e nos alimentar com uma papinha. Esse elemento não parece ser possível sem a ideia por parte do poder governante de que ele possui o segredo da vida, o conhecimento real de toda a ciência política, que deve dirigir a conduta de todos os homens ou ao menos de todos os cidadãos. Assim, qualquer governo que estabeleça como seu objetivo o bem maior da humanidade, o defina e dirija todos os seus esforços para alcançá-lo tende a se tornar uma burocracia.

Nossos governantes dependem de apologistas como Paul Krugman, os intelectuais públicos que realmente acreditam neles e que são sinceramente incapazes de entender a natureza criminosa da autoridade política. Como descentralistas e libertários, não devemos esperar convencê-los. Mas podemos demonstrar que as fantasias não são dos libertários, cujas ideias nunca tiveram espaço. Com todas as suas advertências perturbadas sobre os libertários, são as ideias de autoritários como Krugman e David Brooks que repercutem nos EUA há muito tempo, defendendo uma burocracia que domina todas as áreas da vida. Individualistas de esquerda e descentralistas entendem que não há pessoa ou organização que possua o “segredo da vida”. Assim, devemos resistir à tentação de dar o poder arbitrário e coercitivo ao estado, que, por natureza, não pode jamais ser altruísta ou ter preocupações genuínas com o povo.

David S. D'Amato é ativista e colunista associado do Centro por uma Sociedade Sem Estado (c4ss.org)

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